Desde que me entendo por gente gostei de dormir tarde e levantar tarde. Quando criança sofria, pois de todos na casa só eu era assim, e querendo ou não, tinha que dormir cedo, e mesmo dormindo cedo, acordar de manhã para mim sempre foi um tormento. E quando falo tormento, é assim, algo muito sacrificante mesmo. Não me lembro de nenhum dia que tenha acordado cedo sem que tivesse compromisso. E sempre que tenho compromisso não acordo de boa vontade.
E mesmo aos finais de semana, quando queria dormir até às dez, isso era interpretado como preguiça. Lembro sempre de minha mãe dizendo que aquilo não era mais hora de dormir. Eu pensava: "hora de dormir é hora que estou com sono".
O fato é que não escolhi ser assim, eu nasci assim.
É realmente um sacrifício diário me adaptar à rotina que a sociedade exige para uma vida profissional normal, ou seja, acordar cedo disposta, dormir cedo, etc. Eu sempre durmo tarde e me vejo obrigada a levantar cedo, o que me leva a poucas horas de sono por noite. Resultado? Cansaço, falta de atenção, raciocínio lento, sonolência durante o dia.
Estudando de madrugada passei em alguns concursos e consegui me formar na faculdade de Letras. Mas até conseguir esses progressos e ser auto suficiente, sempre sofri com piadinhas e insinuações de que seria preguiçosa ou dorminhoca demais.
Esse desabafo todo é para dizer que finalmente descobri que não estou sozinha e que não sou doente!
Eu li na Revista Galileu que sou Vespertina. Se você se identificou com o que descrevi acima, compensa ler o texto abaixo, extraído do site da revista. É um pouco extenso, mas esclarecedor.
Quem dorme até tarde não é vagabundo, diz ciência
Pessoas com o gene da "verpertilidade" têm predisposição para acordar tarde.
Alvo de críticas de familiares e amigos, quem gosta de ficar na cama até a hora do almoço pode ter um motivo científico para a "vagabundagem": o distúrbio do sono atrasado. O assunto foi um dos temas abordados no 6º Congresso Brasileiro do Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu recentemente em Gramado.
O organismo humano tem um ciclo diário, de modo que os níveis hormonais e a temperatura do corpo se alteram ao longo do dia e da noite. Depois do almoço, por exemplo, o corpo trabalha para fazer a digestão e, conseqüentemente, a temperatura sobe, o que pode causar sonolência.
Quando dormimos, a temperatura do corpo diminui e começamos a produzir hormônios de crescimento. Se dormirmos durante a noite, no escuro, produzimos também um hormônio específico chamado melatonina, responsável por comandar o ciclo do sono e fazer com que sua qualidade seja melhor, que seja mais profundo.
Pessoas vespertinas, que têm o hábito de ir para a cama durante a madrugada e dormir até o meio dia, por exemplo, só irão começar a produzir seus hormônios por volta das 5 da manhã. Isso fará com que tenham dificuldade de ir para a cama mais cedo no outro dia e, consequentemente, de acordar mais cedo. É um hábito que só tende a piorar, porque a pessoa vai procurar fazer suas atividades durante o final da tarde e a noite, quando tem mais energia.
O pesquisador Luciano Ribeiro Jr. da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em sono, explica que esse distúrbio pode ser genético: "Pessoas com o gene da ‘vespertilidade’ têm predisposição para serem vespertinas. É claro que fator social e educação também podem favorecer”. Mas não se sabe ainda até que ponto o comportamento social pode influenciar o problema.
A questão, na verdade, é que o vespertino não se encaixa na rotina que consideramos normal e acaba prejudicado em muitos aspectos. O problema surge na infância. A criança prefere estudar durante a tarde e não consegue praticar muitas atividades de manhã. Na adolescência, a doença é acentuada, uma vez que os jovens tendem a sair à noite e dormir até tarde com mais frequência.
A característica vira um problema quando persiste na fase adulta. “O vespertino é aquele que já saiu da adolescência. Pessoas acima de 20 anos de idade que não conseguem se acostumar ao ritmo de vida que a maioria está acostumada”, diz Luciano. Segundo ele, cerca de 5% da população sofre do transtorno da fase atrasada do sono em diferentes graus e apenas uma pequena parcela acaba se adaptando à rotina contemporânea.
O pesquisador conta também que, além do preconceito sofrido pelos pais, professores e, mais tarde, pelos colegas de trabalho, o vespertino sofre de problemas psiquiátricos com maior frequência: depressão, bipolaridade, hiperatividade, déficit de atenção são os mais comuns. Além disso, a privação do sono profundo, quando sonhamos, faz com que a pessoa tenha maior susceptibilidade a vários problemas de saúde: no sistema nervoso, endócrino, renal, cardiovascular, imunológico, digestivo, além do comportamento sexual.
O tratamento não envolve apenas remédios indutores do sono, como se fosse uma insônia comum. É necessária uma terapia comportamental complexa, numa tentativa de mudar o hábito, procurando antecipar o horário do sono. Envolve estímulo de luz, atividades físicas durante a manhã e principalmente um trabalho de reeducação.
E as pessoas que têm o hábito de acordar às 4 ou 5 horas da manhã? “O lado oposto do vespertino é o que a gente chama de avanço de fase. Só que esse não tem o problema maior no sentido social. Ele está mais adaptado aos ritmos sociais e profissionais. Os meus pacientes deste tipo têm orgulho, já ouvi mais de uma vez eles dizendo ‘Deus ajuda quem cedo madruga’”, diz o neurologista.
